Nos bastidores da Prefeitura de Belém, cresce a percepção de que o comando político da capital paraense está cada vez mais distante dos grupos locais que ajudaram a eleger o prefeito Igor Normando. Enquanto aliados históricos seguem alijados da gestão, um núcleo político oriundo de Pernambuco vem ocupando espaços estratégicos e acumulando poder dentro da administração municipal.

Logo no início do governo, Igor Normando nomeou Fillipe Luis Cabral da Rocha, primo da primeira-dama Fabíola Cabral Normando, para o cargo de Ouvidor Geral do Município de Belém. O salário, conforme já divulgado, girava em torno de R$ 20 mil mensais. Apesar da remuneração elevada, até hoje não foi apresentada qualquer atuação concreta ou resultado efetivo de Fillipe à frente da Ouvidoria, um órgão que deveria ser canal direto entre a população e a gestão.

O histórico de Fillipe Cabral chama atenção. Antes de chegar a Belém, ele ocupou cargo na Câmara de Vereadores de Cabo de Santo Agostinho (PE), município comandado por Lula Cabral, figura central da política pernambucana e pai da primeira-dama. O movimento evidenciou que o espaço aberto na Prefeitura de Belém não se restringia a uma nomeação isolada, mas fazia parte de um arranjo político mais amplo.
E o avanço não parou por aí.

Há pouco mais de uma semana, Belém passou a receber a presença constante de Edna Gomes da Silva, um nome de peso da política de Pernambuco. Edna traz no currículo passagens como Secretária Municipal de Recife, Vereadora, Secretária Municipal e Vice-prefeita de Cabo de Santo Agostinho. Mais do que experiência administrativa, ela carrega uma ligação histórica: são mais de 30 anos de fidelidade ao grupo político de Lula Cabral.
A chegada de Edna Gomes sinaliza um novo e preocupante movimento estratégico dentro da Prefeitura da chamada Cidade das Mangueiras. Sem anúncio oficial de nomeação, ela passou a circular intensamente pelos gabinetes do Prefeito, da Primeira-Dama, da SEGOV e da FUNPAPA, demonstrando uma atuação multissetorial incomum para alguém sem cargo formalmente definido.
Um detalhe não passa despercebido: em praticamente todas as suas movimentações, Edna Gomes está acompanhada de Fillipe Cabral, agora realocado como Secretário Adjunto. A dupla se tornou presença constante, especialmente na Sala 602, indicando que decisões relevantes estão sendo articuladas longe dos holofotes e sem qualquer transparência.
Diante da pressão política e das críticas públicas, Igor Normando foi obrigado a exonerar Fillipe Cabral do cargo de Secretário da Ouvidoria Geral. No entanto, a medida revelou-se meramente cosmética. Por imposição direta da primeira-dama, Fillipe foi rapidamente “agasalhado” na estrutura municipal, assumindo o posto de Secretário Adjunto da Secretaria Municipal de Governo (SEGOV).
Embora o salário tenha sofrido pequena redução, o poder permaneceu intacto.
A real intenção por trás da mudança — desconhecida por muitos, inclusive por aliados externos e até pelo Governador — foi preservar o poder de mando de Fillipe Cabral, ainda que em um cargo formalmente inferior. Enquanto Cleiton Chaves foi nomeado titular da SEGOV, acumulando também a SEZEL, fontes internas são categóricas ao afirmar que quem comanda de fato a SEGOV é Fillipe Cabral, exercendo influência direta e decisiva nas principais deliberações.
Com a recente troca no comando da FUNPAPA, marcada pela entrada de Susi Barata, o cenário se consolida: os chamados “pernambucanos” seguem ditando as regras nas pastas mais sensíveis da administração municipal.
O resultado é um governo cada vez mais fechado, centralizado em interesses familiares e externos, enquanto lideranças locais, aliados políticos e quadros técnicos de Belém assistem, do lado de fora, à transformação da Prefeitura em extensão de uma velha oligarquia do Recife. A pergunta que ecoa nos corredores é simples e incômoda: quem, afinal, governa Belém?





