Sávio Barbosa - BOMBA: Dono da JKL Investimentos, que vendeu milhões de luvas à Prefeitura de Belém, teria sido laranja de uma quadrilha especializada em lavagem de dinheiro.

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BOMBA: Dono da JKL Investimentos, que vendeu milhões de luvas à Prefeitura de Belém, teria sido laranja de uma quadrilha especializada em lavagem de dinheiro.

Segundo a Operação Perfídia, ele teria ajudado a lavar 5 bilhões de dólares. E, por incrível que pareça, teria até “morrido” e “ressuscitado”. Em apenas um dia, JKL Investimentos aumentou seu capital em R$ 8,751 bilhões. Mas os títulos do Tesouro que usou no aumento têm indícios de fraude. Onze milhões de luvas compradas por Zenaldo representam 7 vezes a população de Belém e 50 vezes o total de casos de Covid-19 no Pará.

Uma das empresas contratadas para fornecer 11 milhões de unidades de luvas de látex à Prefeitura de Belém pertence a um empresário que foi apontado pela Polícia Federal como laranja de uma quadrilha.

A empresa é a JKL Investimentos S/A (CNPJ 33.286.926/0001-44), sediada em Fortaleza, capital do Ceará.

O principal acionista da empresa é Maurício Araújo de Oliveira Souza, dono da quase totalidade das ações.

Em março de 2017, a Operação Perfídia, da Polícia Federal, apontou o empresário como laranja de uma organização criminosa (orcrim) comandada por integrantes da família Chater, e especializada em falsificação de documentos, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Ele teria ajudado a lavar quase 5 bilhões de dólares, em uma operação entre um banco da Dinamarca e a Global Recreative Sistem – GRS CA, da qual era o representante legal.

Após a Operação Perfídia, um cidadão que se identificou como Maurício disse a um veículo de comunicação do Mato Grosso do Sul, seu estado natal, que a PF havia se equivocado e que o envolvimento dele no caso se devia ao roubo de seus documentos. 

Mas em 12 de março deste ano, o empresário realizou uma impressionante movimentação financeira: em um único dia, ele aumentou em R$ 8,751 bilhões o capital social da JKL Investimentos. 

Os recursos teriam sido totalmente integralizados através de Certificados Financeiros do Tesouro Nacional, que, no entanto, apresentam indícios de fraude.

Segundo a Assessoria de Comunicação da Procuradoria Regional da República da 1 Região, há 7 processos em segundo grau, no Distrito Federal, um deles sob sigilo, relativos à Operação Perfídia.

Nenhum dos não-sigilosos envolve Maurício.

Mas a Assessoria não soube responder a duas insistentes perguntas do blog: 1) Se ele foi inocentado ou se continua sob investigação; 2) Se ele está ou pode estar nesse processo sigiloso.

No último 2 de julho, no processo 0011790-76.2015.5.15.0045, que tramita na Justiça do Trabalho de São José dos Campos, no estado de São Paulo, o juiz Roberto dos Santos Soares determinou a quebra dos sigilos fiscal e bancário do empresário e da Vip Logística, que pertence a ele.

Na decisão, o juiz diz que foram infrutíferas todas as tentativas de localização de bens de Maurício, da Vip e de dois outros réus do processo.

“Entretanto, as consultas Id afc34f0 demonstram que os executados, em especial o sócio Maurício Araújo de Oliveira Souza, mantêm-se ativos em atividades econômicas recentes relacionadas a abertura e participação em empresas de vultuoso capital social, o que constitui indícios suficientes de que os executados vêm se utilizando de meios para ocultação patrimonial que acabam por frustrar a efetividade das execuções trabalhistas”, escreveu.

E acrescentou: “Não é de se desconsiderar, ainda, a manifestação da reclamante indicando o envolvimento do CPF do executado Mauricio Araújo de Oliveira Souza em supostas operações financeiras fraudulentas”.

No Google, há informações de que a JKL Investimentos se prepara, inclusive, para começar a operar no Brasil, no ano que vem, uma companhia de aviação: a Nella Airlines.

No site da empresa (em inglês), consta que o grupo JKL possui negócios em vários países (entre eles Brasil, Estados Unidos, Irlanda, Turquia e Panamá), e que Maurício, CEO da JKL Holdings, vive em Orlando, nos Estados Unidos.

Empresário “morreu” e “ressuscitou”

Um fato curioso é que a lavagem dos 5 bilhões de dólares, pela suposta orcrim desbaratada pela Operação Perfídia, teria envolvido a “morte” e “ressurreição” de Maurício.

Segundo a PF, ele teve o CPF cancelado junto à Secretaria da Receita Federal, em 2013, por “encerramento do espólio”.

Mas no ano seguinte obteve um novo CPF (068.800.271-48), com o qual se tornou representante legal da Global Recreative Sistem. 

A empresa (uma offshore), sediada na cidade de Miranda, na Venezuela, foi posteriormente transferida a outros dois integrantes da suposta quadrilha. 

Após a “ressurreição”, Maurício também obteve um novo passaporte e até abriu a VIP Logística Eireli – EPP (CNPJ 20.657.618/0001-36), uma pequena transportadora sediada em São Paulo, que até hoje, segundo a Receita Federal, possui um capital de apenas R$ 100 mil.

11 milhões de luvas, ou 7 vezes a população de Belém

Como você leu no Diário do Pará do último domingo e aqui no Blog, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, comprou, agora em setembro, 11,250 milhões de unidades de luvas de látex, para os servidores da Secretaria Municipal de Saúde (SESMA).

É mais do que toda a população do Pará, estimada em quase 8,7 milhões de pessoas, e 7 vezes a população de Belém, que é inferior a 1,5 milhão de habitantes. 

Além disso, a SESMA possui apenas uns 3 mil servidores que atendem diretamente a população.

A desculpa de Zenaldo é a pandemia de Covid-19.

Mas o pico da doença ocorreu em maio, e hoje ela se encontra em queda, no Pará.

Os 11,250 milhões de luvas comprados por Zenaldo representam, aliás, 50 vezes o total de casos confirmados de Covid-19, em todo o Pará, e 309 vezes todos os casos de Belém. 

O Pregão Eletrônico 134/2020, para a compra dessas luvas, foi realizado entre 28 de agosto e 4 de setembro. 

Duas empresas saíram vencedoras: a F Cardoso & Cia Ltda, que levou um contrato de R$ 3,120 milhões, para fornecer luvas de tamanho médio; e a JKL Investimentos, cujo contrato ficou em R$ 1,995 milhão, para a entrega de luvas nos tamanhos grande e pequeno.

Os contratos têm vigência de 3 meses e foram assinados em 18/09.

Veja o contrato da JKL:https://drive.google.com/file/d/1R9OQdJWHgHDJi3Bd075yjC2fMJIVIBY2/view?usp=sharing

E o contrato da F Cardoso:https://drive.google.com/file/d/1XK22pzFUfka0e3nDCKJdXyxrp0fJRuyz/view?usp=sharing

Mas não é a primeira vez que Zenaldo adquire Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs), para a SESMA, com indícios de irregularidades, principalmente de superfaturamento quantitativo, que é quando o Poder Público compra quantidades de um produto muito acima de sua real necessidade, para receber apenas uma parte daquilo que pagou.

Em 5 de julho, o jornal Diário do Pará, em reportagem assinada por mim, mostrou que o prefeito já havia comprado, sem licitação e com indícios de irregularidades, R$ 12,5 milhões em EPIs, durante a pandemia.

Na época, o caso mais impressionante era a compra de 4,6 milhões de unidades de luvas de látex, por R$ 1,748 milhão, em um contrato com vigência de 6 meses, com a empresa maranhense J J da Silva & Santos.

Três dias depois da reportagem do Diário, a SESMA cancelou, às pressas, aquele contrato das luvas.

E em 5 de agosto, o dono da J J da Silva & Santos e três secretários municipais de Saúde do Maranhão foram presos pela Polícia Federal, durante a Operação Falsa Esperança.

Segundo a PF, a J J da Silva & Santos integraria uma organização criminosa que fraudou licitações e superfaturou EPIs em até 400 por cento, em contratos com prefeituras daquele estado.

Para mais informações vocês podem acessar o blog da Jornalista Ana Célia Pinheiro: https://pererecadavizinha.blogspot.com/2020/10/dono-da-jkl-investimentos-que-vendeu.html?m=1