Uma casa de luxo no litoral do Nordeste comprada por meio de Pix. É com esse questionamento que as apresentadoras Maju Coutinho e Poliana Abritta introduzem a reportagem sobre o mega escândalo de corrupção envolvendo o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos.
A matéria começa investigando quem é o proprietário de uma casa localizada em um condomínio de alto padrão no município de Fortim, no interior do Ceará, à beira-mar da praia da cidade. Após conversar com o segurança do local, o repórter Maurício Ferraz confirma que o dono do imóvel é Daniel Santos.

Um dos pontos que mais chama a atenção na reportagem é que a casa do prefeito foi a primeira construída no condomínio, a chamada “casa modelo”. Segundo a reportagem, o imóvel está avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões. Já completamente mobiliado e pronto para uso, o valor pode chegar a R$ 4 milhões.
De acordo com a investigação apresentada na matéria, a casa foi comprada em nome de uma empresa ligada ao prefeito, a Agropecuária JD. No entanto, o Ministério Público suspeita que o pagamento tenha sido feito com recursos provenientes de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo contratos da prefeitura de Ananindeua, verbas que deveriam ser destinadas a áreas como saúde, educação e infraestrutura.
A reportagem também detalha como funcionaria o suposto esquema que envolve o prefeito. Segundo o Ministério Público, o dinheiro usado para comprar o imóvel no Ceará teria sido repassado por cinco empresas que mantinham contratos com a prefeitura, em um mecanismo que os investigadores chamaram de “vaquinha da corrupção”.
Assista a matéria na íntregra:
Na prática, sempre que uma dessas empresas recebia pagamentos da prefeitura por serviços prestados ou fornecimento de materiais, parte do valor era transferida para quitar parcelas da casa de luxo do prefeito.
O esquema
Para ilustrar o funcionamento do esquema, a reportagem apresenta o contrato da empresa NEO BRS, que presta serviços à Secretaria Municipal de Educação de Ananindeua, fornecendo materiais como cadernos, canetas, tesouras e réguas.
Em 2024, duas notas fiscais foram emitidas para pagamento pelos serviços prestados: uma no dia 30 de setembro, no valor de R$ 995.038, e outra em 1º de outubro, no valor de R$ 493.099 — totalizando quase R$ 1,5 milhão.
Segundo a investigação mostrada na reportagem, um dia após receber o pagamento, a NEO BRS transferiu R$ 866.034,25 para a empresa responsável pelo empreendimento imobiliário que construiu a casa de luxo do prefeito no Ceará. O valor corresponderia a uma das parcelas do imóvel.
Outro exemplo apresentado envolve a empresa Ferreira Comercial, fornecedora de produtos de limpeza para a mesma secretaria. Documentos exibidos na reportagem indicam que a prefeitura pagou R$ 521.581,40 à empresa em 2 de outubro de 2024. No dia seguinte, a empresa transferiu R$ 250 mil para pagar outra parcela do imóvel. A equipe da reportagem tentou localizar a empresa no endereço registrado, mas não encontrou representantes no local.
A investigação aponta ainda a participação de integrantes da própria gestão municipal. Um deles seria Alexandre Gomes, que assumiu a Secretaria de Habitação em fevereiro de 2025. De acordo com a reportagem, pouco após assumir o cargo, ele teria realizado dois depósitos que somam R$ 1 milhão, também destinados ao pagamento de parcelas da casa. Ele foi procurado pela reportagem, mas não foi encontrado.
Ouvido na matéria, o procurador-geral de Justiça do Pará, Alexandre Tourinho, afirmou que as investigações apontam para uma evolução patrimonial incompatível com os rendimentos declarados pelo prefeito, além de indícios de lavagem de dinheiro e possível atuação de organização criminosa.
A investigação se baseia, entre outros pontos, no crescimento do patrimônio de Daniel Santos. Durante a campanha pela reeleição, o prefeito declarou possuir bens que somavam quase R$ 5 milhões. No entanto, o Ministério Público do Pará pediu o bloqueio de mais de R$ 130 milhões em bens ligados a ele, incluindo uma fazenda adquirida por R$ 16 milhões.
A reportagem também revelou que o mesmo esquema de repasses teria sido utilizado para a compra de um avião avaliado em mais de R$ 10 milhões. A aeronave, no entanto, teria desaparecido. O Ministério Público suspeita que o prefeito tenha se desfeito do avião após receber informações sobre a operação que investigava o caso.
A equipe de reportagem procurou Daniel Santos na sede da prefeitura, mas ele não foi localizado. Em nota, o prefeito afirmou que as acusações são falsas e que está sendo vítima de perseguição política.
Diante das investigações, Daniel Santos é alvo de apuração por suspeitas de corrupção ativa, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O caso está sendo analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após a defesa do prefeito argumentar que a esposa dele, Alessandra Haber, deputada federal, poderia ser citada no processo. O Ministério Público, porém, afirma que não há confirmação de envolvimento da parlamentar nas investigações.





